Cientista que virou mãe – Como conciliar universidade, trabalho e maternidade

Compartilhe esse post:

Para entender sobre o assunto de ser cientista que virou mãe nada melhor do que perguntar para quem sabe e viveu essa experiência.

Imagine Ser mãe, estudar, pesquisar, lecionar, trabalhar, está bom ou quer mais?

Conciliar a maternidade com a vida social e profissional é um grande desafio.

Nós da Mettzer, entrevistamos a Dra. Rosana Glat que é mãe e já escreveu dois livros sobre o tema e a M. Alyne Sehnem que recentemente se tornou mãe do João Gabriel.

Ótima leitura a todas e todos! 😉

Cientista que virou mãe 1 – Rosana Glat

Mini Biografia: Diretora e Professora Associada da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), atuando no Programa de Pós-graduação em Educação (PROPEd) e no Curso de Pedagogia, nas modalidades presencial e à distância. Graduada em Psicologia pela University of the Pacific da Califórnia (1976), com Mestrado em Psicologia com ênfase em Análise Aplicada do Comportamento e Deficiência Intelectual pela Northeastern University de Boston (1978), e Doutorado em Psicologia Social e da Cultura pela Fundação Getúlio Vargas-RJ (1988).

Entrevista com Rosana Glat

Rosana, o que te inspirou a escreve os Livros “Ser Mãe, e a Vida Continua” e “Ser Mãe e Viva a Vida” ?

Sou mãe de três filhos, Ilan, 36, Gabriel, 30 e a Lúcia, 29. Nesta experiência pude viver algumas situações semelhantes daquelas descritas nos dois livros.

Escrevi o primeiro livro em 1993, são histórias de mulheres que acabaram de ter nenéns.

Quando a mulher está grávida ela é o centro de todas as atenções, majestosa, linda, mas quando o filho nasce ela vira o coadjuvante.

“Ser Mãe, e a Vida Continua” trabalha com histórias que se repetem com muitas mulheres, por exemplo, quando a mulher sente desamparada, com baixa autoestima e todas as demais contradições psicológicas deste período tão importante na vida das mulheres.

Para desenvolver a obra usei a metodologia de História de Vida, pude entrevistar um grande número de casais com recém-nascidos, comparando os dados e encontrando os pontos mais recorrentes.

O livro “Ser Mãe e Viva a Vida”, editado em 2009, é uma edição revisada e atualizada do primeiro livro.

Nesta oportunidade entrevistei mais casais, com o objetivo de verificar se os comportamentos haviam mudado e para minha surpresa as mulheres continuavam vivendo as mesmas experiências ao longo do tempo.

Os dois livros tratam especificamente da mulher e estão divididos em três partes. A primeira parte “E agora? O que que eu faço?” discorre o pós-parto, a chegada do bebê e a insegurança deste período, a segunda parte, chamada “Olha no que eu virei…” discute o momento em que a mulher começa a se perceber como mãe, as transformações no seu corpo e na vida, a terceira e última parte, intitulada “Quando você vai tirar esse uniforme de mãe?”, fala do tempo em que o neném já está maiorzinho e a mulher começa a se organizar para retornar ao convívio social e profissional.

Na sua visão, como as mulheres lidam com o desafio de conciliar universidade, trabalho e maternidade?

Primeiro precisa ser muito organizada, precisa planejar.

Quando uma criança entra na sua vida, você precisa se organizar.

Na universidade tem a grande vantagem de existir horários mais flexíveis, a rotina é mais maleável e alguns trabalhos podem ser feitos em casa, embora que com uma criança pequena o trabalho em casa fica mais difícil.

Quando fiz o mestrado eu já tinha o Ilan e quando fiz o doutorado o Gabriel e a Lúcia eram bem pequenos.

O Ilan foi desde cedo para a creche.

Precisa ter noção que você vai se limitar, você não poderá ir para todos os congressos, todos os eventos e muito menos abraçar mais trabalho do que deveria.

Muitas vezes terá que renunciar algumas oportunidades para conciliar a maternidade.

O tempo passa rápido, é preciso aproveitar a infância.

Na composição do segundo livro, pude notar que o homem está mais participativo na divisão das tarefas da casa e nos cuidados com o bebê, hoje em dia os casais estão bem mais divididos, tanto financeiramente quando em tarefas. E isto é bastante importante para a mulher.

Há poucos anos atrás a história era diferente.

Rosana, no seu livro “Ser Mãe e Viva a Vida” você fala sobre o processo no qual a mulher começa a conciliar o papel de mãe com a vida profissional e social. Você poderia contar um pouco destas experiências de transição que você observou?

Vai depender do tipo de trabalho que a mulher tem e do tipo de esquema que ela conseguiu organizar.

Também depende do tempo que ela tem de licença maternidade.

Quando tive o Ilan foi mais fácil, eu estava iniciando minha vida profissional e pude conciliar melhor, mesmo ele indo para a escolinha muito cedo. Já com o Gabriel e a Lúcia foi um pouco mais corrido.

Uma questão muito forte nas mães é a amamentação, recomenda-se que as mães amamentam o máximo possível, existem muitos recursos para auxiliar nesta tarefa e jamais se deve colocar o trabalho frente a esta atividade.

Existem também bastantes eventos que fogem do controle, é muito importante ter sempre um plano B, pois a criança pode adoecer, a babá pode faltar, se a creche for pública pode haver greve, os avós podem ter outro compromisso de última hora, enfim, estamos sujeitos a inúmeras situações e os pais precisam estar preparados.

Hoje em dia temos o auxílio da tecnologia.

O celular ajuda muito, a comunicação facilitou bastante o acompanhamento desta transição, só precisa cuidar para isto não virar uma neura e ficar o tempo todo monitorando o bebê. É preciso ter tranquilidade e segurança para a mulher conseguir desempenhar suas funções.

Eu tive a vantagem de ter ocupações profissionais (consultório e universidade) com horários mais flexíveis.

Na universidade a relação é muito mais humana, os gestores geralmente são mais flexíveis, os colegas ajudam cobrindo horários, trocando aulas, é bastante comum.

Porém, no mercado em geral o pensamento é muito mais competitivo, a mulher é discriminada, muitas vezes nem contratam mulheres sem filhos para evitar que ela engravide durante o período que está trabalhando na empresa.

Também existem aquelas mulheres que não optam por largar o trabalho e dedicar um pouco de tempo aos filhos, algumas por não ter outra opção, porém, já vi casos de mães que podiam parar e não fizeram.

Se você tem condição de parar de trabalhar, vá em frente, não há motivos para não fazer. Existe uma grande cobrança profissional sobre a mulher, nesta hora deve entrar em campo o bom senso.

Quem são os principais agentes que influenciam este processo de retorno das “mamães” ao convívio social e profissional?

A família. A relação com a família é muito importante, com o companheiro também, estas relações são fundamentais.

O bebe não é só da mãe. Como você negocia o retorno ao convívio social e profissional com seu marido? Com a família a mesma coisa, no trabalho também, precisa negociar bastante.

Os amigos influenciam muito, conversar com alguns casais que já passaram pela mesma experiência ajuda bastante.

Uma terapia também pode ajudar em casos mais complexos.

Estive recentemente em Londres e vi muitas mulheres fazendo exercícios com os bebes no parque, grupos de mulheres, que usavam o próprio carrinho do bebê para fazer corrida, uma verdadeira integração da maternidade com a vida mulher.

Outra coisa que vi por lá é a divisão do bebê, permitir que outras mães cuidem do seu filho e você cuidar do bebê de outras mães, estas também são formas de negociação.

O relacionamento na pracinha é um ponto informal de ajuda mútua. Enquanto as crianças brincam, pais e mães conversam, desabafar, trocam experiências, criam novas amizades.

Meus filhos foram criados brincando numa praça aqui perto de casa e algumas das minhas melhores amigas, até hoje, conheci na pracinha.

Um ponto importante é a dicotomia entre a mulher mãe e a mulher sensual, neste período as mulheres negam a sensualidade e vestem o estereótipo de mãe. Isto dificulta muito a relação com o parceiro e a “tirar esse uniforme de mãe”.

Quando a mulher volta a sua vida comum, muitas vezes ela própria cria barreiras para o convívio social e íntimo.

Você pode ser uma excelente mãe e ter uma vida sexual ativa, pode cuidar do próprio corpo, ir a festas, dançar e se divertir, viver a vida.

Cientista que virou mãe 2 – Alyne Sehnem

Mini Biografia: Mestre em Administração pela Universidade de Caxias do Sul (RS), Bacharel em Administração e Licenciada em História pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (SC). Autora dos livros “Desenvolvimento Regional e Capital Social no Extremo Oeste Catarinense” e “Oktoberfest de Itapiranga: 30 anos de História”. Atualmente é docente do Curso de Administração da UNOESC Campus de Maravilha e São Miguel do Oeste.

Entrevista com Alyne Sehnem

Alyne, conte-nos um pouco sobre o seu trabalho, quais pesquisas já realizou e o que tem planejado para o futuro?

Desde o início das minhas graduações eu trabalho com pesquisa. Direcionei minha vida profissional para este ramo, focando sempre um curso de Mestrado.

Para isso procurava direcionar os trabalhos acadêmicos para temas que eu pudesse conciliar com as duas graduações.

Foram anos bem puxados, mas que valeram a pena.

Ao final do curso de História o meu trabalho de conclusão de curso foi formatado para publicação em livro.

A dedicação dos anos de graduação e as publicações conseguidas resultaram na classificação em segundo lugar no Programa de Mestrado em Administração da UCS.

Com isso também consegui um bolsa de estudos que me fez residir por um ano em Caxias do Sul.

No segundo ano do Mestrado já havia conseguido uma colocação como Coordenadora de Curso Superior na Faculdade Senac, e um mês após a defesa da dissertação, a Coordenação dos Cursos de Administração da Unoesc (em Mondaí, Pinhalzinho e Maravilha).

No ano passado a minha pesquisa de Mestrado também foi publicada em livro, para a minha alegria!

Para o futuro temos alguns planos, mas que agora precisam ser articulados cuidadosamente, uma vez que não posso mais pensar só em mim!

Os planos envolvem e precisam mobilizar mais pessoas! As decisões precisam ser muito bem calculadas!

Alyne, você trabalhou durante a sua gestação?

Trabalhei até os 06 meses de gestação. Trabalhava no Fórum da Comarca de Cunha Porã durante o dia, em duas noites lecionava na Unoesc de Maravilha e coordenava os TCCs de Administração.

Com 05 meses foi detectada uma deficiência de vascularização, que limitava a oxigenação e a nutrição do bebê.

Como a rotina e o transito que eu pegava todos os dias alteravam a minha pressão, isso poderia prejudicar o desenvolvimento da criança, por isso, no dia 30 de abril de 2014 tive que parar de fazer tudo o que eu fazia, tive que ficar em casa e descansar!

Essa foi a parte mais difícil da gravidez! Simplesmente parar e ficar em casa quietinha!

Depois de alguns dias em choque comecei a replanejar a minha vida!

Consegui publicar alguns artigos e terminei um MBA em Formação de Consultores Empresariais.

Tive bastante tempo para rever as minhas prioridades, ver o que valeria a pena continuar fazendo depois da licença, o que eu deveria abrir mão, pensar em como seria a minha nova rotina e o que precisaria fazer para compensar o tempo que estaria “fora do mercado”.

Com quantos meses está o seu bebê atualmente?

Hoje o João Gabriel está com 08 meses e meio.

Como está sendo a sua experiência como mãe?

Está sendo muito boa! A rotina mudou bastante, mas ainda consigo me dedicar a muita coisa que fazia antes.

Acredito que o João vai aprendendo e tendo algumas referências que julgo importantes para a vida dele, pelos exemplos que ele tem em casa.

O meu marido e eu não deixamos de fazer o que acreditamos ser importante para a nossa carreira. Adaptamo-nos à nova realidade e, quando é possível, levamos o João junto!

Com quantos meses você retornou às suas atividades profissionais? Como foi para você retornar às atividades profissionais e sociais?

Voltei a dar aulas quando o João tinha quase 07 meses.

Depois de quase um ano parada! O retorno foi tranquilo. Claro que a gente perde um pouco o ritmo, precisa retomar os conceitos, discussões, fazer cursos, enfim, compensar o tempo parado.

Pra mim, ter que parar foi mais difícil do que voltar para a vida profissional e social!

Como você planejou a sua volta ao trabalho?

Tive bastante tempo para planejar isso! Tive que tomar muitas decisões importantes e que impactaram muito a minha vida! Tudo precisou ser revisto!

Como está sendo o desafio de cuidar do seu filho e continuar com a vida acadêmica?

É um desafio interessante! Como já havíamos planejado e pensado bastante na decisão de ter um filho, as coisas estão saindo mais ou menos como previsto.

A rotina mudou, sim, mas dentro do que tínhamos programado. Consigo manter um tempo para estudar e planejar as aulas, ficar com o João e trabalhar! O meu marido participa bastante! Dividimos as atividades!

Alyne, algum relato da sua experiência que você deseja compartilhar?

Não sei se seria um relato, mas sempre enfatizo a questão do planejamento! Como professora de planejamento estratégico seria incoerente ser diferente! Costumo planejar muito aquilo que faço.

Traço metas e estabeleço pontos que gostaria de alcançar.

Foi assim durante a minha vida acadêmica, profissional e pessoal. Até agora sempre atingi as metas que estabeleci!

Acredito que consiga continuar nessa constante!!

———–

GLAT, R. Ser mãe e a vida continua . Rio de Janeiro: Editora Agir, 1993.
GLAT, R. Ser mãe e viva a vida. Rio de Janeiro: Documenta Histórica Editora, 2009.

Resumo
Artigo
Mãe Acadêmica, como conciliar academia e maternidade
Descrição
Cientista que virou mãe, conciliar a maternidade com a vida social e profissional é um grande desafio. Por isso entrevistamos duas experts no assunto.
Autor
Publicador
Mettzer

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.