Pseudociências – Saiba o que são e porque são um problema

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Neste artigo, Lucas Rosa fundador do Mural Científico fala sobre Pseudociências e os problemas que pode causar.


Meu nome é Lucas Rosa, fundador do Mural Científico e colaborador do Nunca Vi Um Cientista.

Eu falo de ciência na internet há 4 anos e, infelizmente, tenho uma confissão a fazer: eu não sou uma boa pessoa.

 Enquanto a maioria dos meus colegas de divulgação científica são movidos por uma profunda paixão pela ciência, eu sou um cara movido à ódio. Nada me motiva mais do que ver alguém falando merda.

 Por isso, sempre dediquei muito o Mural Científico ao combate das chamadas pseudociências – apesar de eu gostar mais de chamar de “falcatruas”, “falsidades” ou “charlatões”. 

O que significa Pseudociência?

Provavelmente você já ouviu falar no termo pseudociências. 

Mas, se eu te pedir pra definir o que significa, aposto que você vai ter bastante dificuldade. E tudo bem – eu também tenho.

 Na verdade, até os filósofos da ciência que trabalham diretamente com esse assunto não possuem uma definição clara e que seja consenso sobre o que diferencia um assunto entre ciência legítima e pseudociência.

 Essa questão é conhecida dentro da área como “O Problema da Demarcação”, e tem raízes lá na grécia antiga. 

Isso não significa que não exista essa diferença. 

Na verdade, tanto cientistas quanto filósofos da ciência concordam praticamente com unanimidade sobre quais tópicos são pseudociência e quais não são. 

O problema é conseguir formalizar quais são as características que tornam alguma coisa uma pseudociência.

 É nisso que há a polêmica; todos concordam, por exemplo, que o terraplanismo (a ideia que a Terra é na verdade um disco plano, e não um globo habitando o Espaço) é uma pseudociência. 

Mas alguns filósofos acreditam que é por causa das características A, B e C, enquanto outro grupo acredita que é por causa das características C, D e E. 

E, se você não sabe explicar porque algo é pseudociência ou não, fica muito difícil explicar para a população leiga a existência dessa distinção. 

Fica parecendo que os cientistas ou pesquisadores não querem que a população acredite em um determinado tópico simplesmente porque eles decidiram que não, como se os cientistas fossem donos de uma autoridade superior. 

E ninguém gosta de gente que se acha melhor que os outros, né? 

Definição de Pseudociências

Bom, mesmo sabendo dessas dificuldades, eu vou fazer o meu melhor para definir Pseudociências de uma maneira que seja válida para o público geral. 

Basicamente, Pseudociência é toda prática ou crença que afirma ser verdadeira e científica mas que são incompatíveis com o método científico – ou seja, que não seguem os procedimentos super rigorosos que a ciência exige antes de considerar qualquer coisa como sendo um fato. 

É importante se atentar à parte “que afirma ser verdadeira e científica”. 

Pseudociências necessariamente reinvindicam a autoridade da ciência – seja por afirmarem que são uma prática com embasamento científico mas mal-compreendida pela população em geral, ou por afirmarem que a ciência como um todo é falsa ou incorreta e que o método deles é mais adequado. 

De uma forma ou de outra, elas passam por esse processo de negação da autoridade científica dentro das áreas em que a ciência é a dominante. 

 O que pode ser considerado pseudociência?

É importante entender isso para não achar que tudo que não é científico é necessariamente pseudociência. 

As religiões, por exemplo, a princípio não são pseudociências, pois não afirmam possuir autoridade científica. Além disso, normalmente elas operam além dos limites filosóficos aos quais a ciência se propõe a atuar.

 A ciência é uma ferramenta, e como toda ferramenta ela possui propósitos e limites. 

São basicamente “regras” que delimitam o funcionamento da ciência. 

Uma dessas regras é o “Naturalismo Metodológico” ou “Materialismo Metodológico”, que, simplificando bastante, determina que a ciência assume que todo o universo pode ser explicado por fenômenos naturais, descartando assim qualquer explicação sobrenatural.

 Isso significa que a ciência sequer se propõe à investigar essa possibilidade. Simplesmente não faz parte das regras do jogo; a ferramenta não foi feita pra isso.

 E portanto, quando a religião afirma que sua alma perdura após a morte e vai pro céu, ela não está sendo pseudocientífica (mas também nunca poderá transmitir isso como um fato comprovado).  

Porém, muitas pseudociências possuem sim embasamento religioso – geralmente quando tentam impôr dogmas religiosos dentro do mundo material, onde, aí sim, a ciência não só opera como reina. 

Então, por exemplo, você acreditar na religião católica não te torna pseudocientífico – mas afirmar que a Terra só tem 6 a 10 mil anos porque é isso que diz na bíblia, e que todas as evidências que contradizem isso estão erradas ou não são confiáveis, é sim um pensamento pseudocientífico. 

Especificamente, essa é a ideia do Criacionismo de Terra Jovem. 

Como cada um deve conciliar suas crenças religiosas com a realidade científica não cabe a mim ditar. 

Só é sempre bom lembrar: os fatos não se curvam aos sentimentos.

 Características das pseudociências

Enfim, a pseudociência necessariamente traz um caráter de enganação, de tentar confundir as pessoas sobre quais são os fatos confiáveis e quais não são. 

Elas comumente se infiltram na própria infraestrutura científica, ou a imitam, criando um simulacro extremamente eficiente em enganar a população leiga.

 Existem revistas “científicas” dedicadas ao estudo do “Design Inteligente”, por exemplo – uma pseudociência que tenta dar uma aparência mais séria e científica para o Criacionismo. 

Eu consigo te trazer dezenas de artigos “científicos” que afirmam que a Evolução não é verdade, e que a única explicação viável para a vida na terra seria a criação por uma entidade inteligente divina. 

Só que essas revistas e artigos não são científicos de verdade.

 Eles não seguem o rigor dos estudos científicos. Não seguem todas as regras e todos os passos. Aceitam evidências falsas, ou distorcidas, ou mesmo mentiras. 

Às vezes, esses estudos conseguem até ser publicados em revistas sérias e de credibilidade – seja por meios escusos (como amizades suspeitas entre os autores do estudo pseudocientífico e o editor da revista) ou simplesmente porque deram sorte de cair nas mãos de um revisor e editor desatento (ou incompetente). 

Estou usando o Criacionismo/Design Inteligente como exemplo porque ele é menos polêmico e eu queria que você lesse até aqui.

Mas isso é verdade também para muitas coisas que as pessoas consideram confiáveis e tem um grande apreço.

Sabia que a homeopatia é uma pseudociência? E a Acupuntura? Reiki? Medicina Tradicional Chinesa? Medicina Alternativa como um todo? Psicanálise? Numerologia? Coaching Quântico? Astrologia? Ufologia? Feng Shui? 

TODOS esses tópicos ou são pseudociências explícitas, do tipo que já foi refutado mil vezes, ou são coisas que não forneceram evidências suficientes de que funcionem/existam, mas continuam sendo promovidos pelos seus participantes. 

E eu estaria disposto a apostar dinheiro que você, caro leitor, está puto comigo nesse exato momento por conta de pelo menos um desses tópicos. 

Como identificar que algo é pseudociência

Sabia que não existe debate dentro da ciência sobre o aquecimento global?

 Sim, todo cientista que afirma que existe um questionamento sobre esse tópico está sendo pseudocientífico. 

O mesmo vale para a Evolução, o Big Bang, a Idade da Terra e o seu Formato (Globo). 

Nenhum desses tópicos possui alternativas cientificamente embasadas. 

Mas uma pesquisa rápida na internet vai te fornecer montanhas de pessoas, muitas vezes com credenciais científicas legítimas (doutores, mestres, professores ou ex-professores de universidades renomadas) afirmando o contrário.

 Afirmando que mentiram pra você. Que estão escondendo a verdade. Que eles possuem conhecimento válido, tão comprovado quanto, alternativas verdadeiras, que são suprimidas pelo sistema, pela ciência dogmática. 

Isso não é verdade. 

Mas mentir é muito fácil, e esses indivíduos possuem muitos interesses para fazê-lo – desde devoção religiosa, ganhos políticos (algumas dessas questões foram ou são politizadas), até simplesmente ganhar fama por ser a voz do contra. 

E é muito difícil mostrar pra quem está fora da ciência que ela é, de fato, um sistema eficaz e muito difícil de se corromper, um sistema MUITO bom em identificar e excluir falcatruas e muito bom também em identificar as falhas nele próprio e se auto-corrigir. 

Não existe forma de pensamento mais robusta e mais confiável do que a ciência. 

Se você seguir sempre o que a ciência dita, você até pode se enganar às vezes – afinal, a ciência é feita de humanos, e humanos não são perfeitos.

 Mas a ciência identifica e conserta seus próprios erros bem rápido, e erra menos do que qualquer outra forma de pensamento disponível pra nossa espécie. 

Se você opta por seguir a ciência apenas quando ela é confortável, ou quando ela concorda com você, mas abre exceções quando é confrontado com realidades desconfortáveis, você fica vulnerável.

 Vulnerável a ser enganado, a perseguir ideias sem fundamento, a gastar dinheiro com coisas que não funcionam, a comprar esperanças vazias.

 E quando a sociedade como um todo começa a fazer isso, a gente começa a se afastar do progresso, com um custo em dinheiro e em vidas. 

“Lucas, mas seu texto tá colocando no mesmo balaio Astrologia e Negação do Aquecimento Global. Não acha isso exagero?”

Não, querido leitor, não acho. Mas sei que vocês já tão putos o suficiente comigo por hoje, então vou parar por aqui.

 Na próxima coluna, vou falar um pouco mais sobre porque não existe pseudociência inofensiva, e como mesmo as que parecem mais inócuas, como a Astrologia, danificam nossa sociedade e contribuem para a disseminação das mais “sérias”. 

Caso queira me xingar (eu sei que você quer) ou só seguir meu trabalho (Own, obrigado <3).


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